11 erros pra não cometer na praia com animais (turismo responsável)

postado por Marcelle Ribeiroe publicado em 25/06/2020

Muitas vezes a gente viaja para a praia e acaba interagindo de forma errada com os animais, mesmo sem saber. Eu mesma já cometi erros por falta de conhecimento. Porém, tenho aprendido mais e mais a como fazer um turismo responsável com animais e acho importante compartilhar dicas com vocês.

Para isso, entrevistei 4 especialistas para saber como praticar o turismo responsável no litoral sem prejudicar os animais. Vamos às recomendações!

Dicas de turismo responsável com animais na praia

1 – Não dê pão ou outras comidas pra peixes

É errado dar pães ou quaisquer outros alimentos a peixinhos no mar, como é comum vermos em piscinas naturais. O alimento fornecido pelos banhistas pode fazer mal aos peixes, além de não nutri-los de maneira adequada, explica Eduardo Leal Esteves, professor adjunto do Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

“A alimentação artificial também pode alterar o seu comportamento alimentar, levando os peixes a dar preferência pelo alimento mais fácil, dado pelos banhistas, em detrimento do alimento natural, presente no ambiente”, afirma o professor Eduardo. Acostumados a receber alimentos dos turistas, os peixes podem passar a gastar menos tempo procurando alimento, alerta Carlos Eduardo Tolussi, professor do curso de Ciências Biológicas da Universidade Anhembi Morumbi. “Além de poder alterar o tamanho e a densidade da população”, complementa Carlos.

Além disso, o pão e outros alimentos podem introduzir doenças, como afirma Rodrigo Leão de Moura, professor do Laboratório de Sistemas Avançados de Gestão da Produção (Sage) da Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Se a introdução de alimentos for crônica, em lugares de alta visitação, toda a estrutura e o funcionamento do ecossistema pode ser alterada, com consequências difíceis de prever. Sem falar que, se a introdução de alimentos for suspensa abruptamente (pandemia!), todo o fluxo de matéria e energia derivado dos alimentos é alterado”, disse Rodrigo.

Para atrair os peixes de piscinas naturais para fotos, há quem, invés de dar comida, os atraia jogando areia no espelho d’água. Na opinião de João Almeida, gerente de vida silvestre na ong Proteção Animal Mundial, fazer isso não é um problema, desde que não seja em uma praia explorada 8h por dia de forma permanente. “O animal fica o tempo todo estimulado, estressado”, explica.

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Peixinhos. Foto: Marcelle Ribeiro.

2 – Não leve conchinhas da praia para casa

Outra dica de turismo responsável com animais na praia tem a ver levar conchinhas da praia para casa, algo que eu mesma já fiz isso quando criança e hoje me arrependo.

A concha é a casa do molusco. Muitas vezes o animal já morreu e a estrutura resiste. Só que ela vai se decompor e o material gerado dessa decomposição será usado por outros moluscos para criarem novas conchas.

Sem conchas para se protegerem, os animais ficam mais vulneráveis. O bernardo-eremita, que é um tipo de caranguejo que tem o abdome desprotegido, por exemplo, quando cresce, deixa a concha em que estava utilizando e escolhe uma maior.”Sem usar uma concha vazia, os bernardos-eremita são comidos por predadores”, explica o professor Rodrigo.

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Conchas. Foto: MrGajowy3 / Pixabay

3 – Não use colares e bijuterias de conchas

Da mesma forma que levar conchas para casa não é correto, também não é recomendado usar colares ou bijuterias feitas de conchas ou búzios.

“Obviamente os seres humanos interagem com o ambiente em sua volta, já que é pelos recursos naturais que ele se alimenta e estabelece e desenvolve sua cultura. O uso de colares demonstra um exemplo disso, de como a cultura humana se relaciona com a natureza, mas isso deve ser feito com responsabilidade e sustentabilidade a fim de minimizar os impactos que nossas atividades podem causar no meio ambiente”, afirma o professor Carlos Eduardo.

 

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Foto: Kathy Mill / Flickr

4 – Não tire estrelas-do-mar de dentro da água

Há relatos de que turistas muitas vezes viram estrelas-do-mar de “cabeça pra baixo” e as colocam para fora d’água. Isso é um perigo. “Com isto, há a entrada de ar em seu organismo, o que pode levá-las à morte”, conta o professor Eduardo.

A estrela-do-mar tende a morrer quando exposta ao ar mesmo que brevemente, por pouquíssimos minutos. “Elas respiram por brânquias, como se fosse um mecanismo externo. Elas estão adaptadas para funcionar dentro da água”, explica o professor Rodrigo.

Além disso, retirar o animal da água pode gerar estresse nele, pois ele pode acreditar que sua vida está sendo ameaçada. “Se esse manuseio for recorrente, isso pode gerar problemas sérios, como menor taxa de reprodução e maior suscetibilidade a contrair doenças”, afirma o professor Carlos Eduardo.

Outro problema é que ao retirar a estrela-do-mar da água, a pessoa pode recolocá-la em um lugar diferente, o que pode deixá-la suscetível a predadores. “Às vezes o bicho escolheu o lugar para ficar porque ele sabe que ele tem os recursos que ele precisa mais próximo”, conta João Almeida, da ong Proteção Animal Mundial.

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Estrela-do-mar em San Andres. Foto: Marcelle Ribeiro.

5 – Não retire cavalos-marinhos da água

Ao retirar cavalos-marinho da água, eles se sentem muito estressados e podem morrer asfixiados. Eles respiram por brânquias, que são estruturas sensíveis para respiração aquática.

Contudo, mesmo em locais como em Porto de Galinhas, onde é comum um passeio para ver os animais em que eles são removidos num pote de vidro com água do local, esta interação pode ser problemática.

“Além disso, os cavalos-marinhos são seres muito sedentários, permanecendo com seus filhotes e outros cavalos-marinhos adultos presos com sua cauda longa preensil a um galho de mangue, esponja ou coral. Ao removê-los deste ambiente, ainda que somente por alguns instantes, isto pode levar o cavalo marinho a um estresse muito elevado e susceptibilidade ao ataque por outros predadores, quando devolvido ao local”, explica o professor Eduardo.

Para João Almeida, da ong Proteção Animal Mundial, se os animais ficarem sendo retirados do local em que estavam e sendo colocados num pote com água o dia inteiro, isso é um problema. “Para os animais que estão ali como um objeto, a vida é um inferno, uma rotina de estresse“, disse.

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Cavalo-marinho em Porto de Galinhas. Foto: Marcelle Ribeiro.

6 – Não pise em corais (mesmo de sapatilha)

Outra dica importante de turismo responsável com animais na praia é não pisar nos corais, o que pode matá-los ou danificá-los seriamente.

“Os corais podem levar dezenas ou centenas de anos para atingir centímetros de diâmetro. Imagine vários banhistas fazendo isso, pisoteando os recifes o tempo todo, todos os dias!”, alerta o professor Eduardo. Segundo ele, o ideal é manter uma distância de 1 metro dos recifes.

O Ministério do Meio Ambiente tem até uma cartilha com um manual de conduta sobre corais.

E pisar em corais com sapatilhas ou papete, como é comum em locais como San Andres, na Colômbia, é um ato de turismo responsável? Para João Almeida, não. “Elas são feitas para a gente não ter o desconforto de se machucar. Lugares que estão mais preocupados com a questão ambiental dizem que é proibido usar a sapatilha e a luva, porque isso desencoraja as pessoas a andarem em cima dos corais”, conta João.

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Corais no Aquario, em San Andres. Foto: Marcelle Ribeiro.

7 – Não suba na área esverdeada de rochas no mar

Sabe aquelas pedras que costumam “aparecer e desaparecer” da praia de acordo com a variação da maré? Elas também exigem sua atenção quando o assunto é turismo responsável. É muito comum haver vida ali, como a de moluscos, crustáceos (como caranguejos e cracas) e algas. Os especialistas recomendam não pisar nesta região, para não matar esses organismos marinhos.

A dica de turismo responsável é observar a cor da rocha ou pedra na praia. Se ela tiver cor esverdeada, é porque tem vida ali.

João Almeida explica que numa pedra na beira da praia pode haver também uma parte mais clara, que é mineral apenas, sem vida. Neste trecho não há problema caminhar, assim como na areia.

8 – Não persiga tartarugas na água

Imagine que você viu uma tartaruga no mar e resolve nadar na direção dela. E daí ela começa a nadar na direção oposta a você. Por que ela faz isso? Porque ela se sente ameaçada por você. “Se você ficar parado, existe mais chance de o animal se aproximar e de apreciar ele”, explica João Almeida.

Além de causar estresse na tartaruga, há outros riscos, como explica o professor Eduardo.

“As tartarugas se estressam demais com esse comportamento humano e ao agarrar uma tartaruga, o banhista pode levar esse animal ao afogamento, pois diferente do que muitos pensam, as tartarugas marinhas respiram foram d’água, como nós humanos. Elas têm que voltar de vez em quando a superfície para respirar. Quando estressadas debaixo d’água, as tartarugas tentam fugir a todo custo e acabam aspirando água e morrendo afogadas. Outra possibilidade é a tartaruga investir em fortes mordidas contra o banhista tentando se livrar de seu predador em potencial”.

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Tartaruga marinha. Foto: Marcelle Ribeiro.

9 – Não reme ou navegue muito próximo a a golfinhos

E passeios de barco para ver golfinhos, pode? Aqui a dica de turismo responsável tem a ver com a distância mantida deles.

Para João Almeida, há maneiras de fazer um passeio de barco para ver golfinhos de forma sustentável no ambiente natural deles. “É ir devagar, com limite de distância bom. Tem que desligar o motor da embarcação fora das situações da zona de ondas. O comandante pode parar os barcos longe dos bichos. Se o bicho vier por curiosidade, ok. Mas é melhor que o barco pare longe”, explica João.

Os lugares onde as espécies de golfinhos ocorrem com muita frequência são zonas de alimentação, reprodução ou descanso e não é bom gerar estresse nesse ambiente. “Os animais podem acabar deixando de se agrupar nesse local”, diz o professor Rodrigo, que lembra que perseguir cetáceos é crime no Brasil. Segundo ele, em Fernando de Noronha (PE), por exemplo, os passeios são feitos não na Baía dos Golfinhos, mas ao largo, nas bordas.

Além disso, as visitações devem ser feitas em horários em que estes animais estejam menos ativos, segundo o professor Carlos Eduardo.

“Isso significa não chegar próximo dos animais em períodos de alimentação e, se for o caso, durante a reprodução, pois esses animais podem estar mais ariscos e assim elevando a chances de acidentes. O que se deve perguntar é, primeiro, se o passeio, seja de barco ou mergulho, apresenta itens de segurança em bom estado. Além disso, se informar se a agência ou o guia particular já foi envolvido em algum tipo de acidente e perguntar sobre a qual é distância e o comportamento dos animais”, disse Carlos.

E alugar caiaque para ver golfinhos, pode?

Alugar um caiaque para ver os golfinhos de perto em Pipa (RN) pode sim gerar estresse nos bichos. “Pipa é um destino de massa, circula muita gente, todo mundo querendo fazer a mesma coisa. Mesmo de stand up paddle ou caiaque, os turistas deveriam receber orientação de ficar distantes dos animais. Gera estresse. Melhor ver a partir da falésia ou da praia”, disse João.

O professor Eduardo complementa: “A aproximação destes animais pode levar a um comportamento agressivo de defesa de uma fêmea ao proteger o seu filhote, por exemplo. Não é recomendável de forma alguma perseguir golfinhos, seja nadando, seja embarcado”.

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Golfinhos. Foto: Marcelle Ribeiro.

10 – Não atraia tubarões com alimentos

Há casos em que, para atrair os tubarões, operadores de passeios ou guias oferecem alimento para os animais na água. A ong Proteção Animal Mundial não recomenda que turistas alimentem animais, seja ele um peixinho ou um tubarão nem estimule a aproximação do animal. “A gente sabe que não é tão fácil assim ver o animal se você não estimula ele. Mas parte das atividade de natureza tem disso. O mundo natural não responde à métrica das moedas. O animal pode não querer aparecer naquele dia”, opina João.

O professor Eduardo lembra que o homem não faz parte dos hábitos alimentares de nenhum tubarão, mas afirma que durante um momento de alimentação é possível que o nadador ou mergulhador seja atacado, sim, pois os bichos ficam excessivamente excitados pela presença do alimento dado pelo mergulhador.

11  – Não toque em arraias

Tocar ou chegar próximo das arraias pode levar o animal a uma resposta de estresse, segundo o professor Carlos Eduardo.

Os especialistas lembram que as arraias têm um ferrão na cauda que, se projetado contra um banhista ou mergulhador desavisado, pode causar sérios ferimentos. “Porém, a arraia só se defenderá se for molestada ou manipulada de alguma forma. A observação a uma certa distância não vai ocasionar problema algum” afirma o professor Eduardo Leal.

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Arraia. Foto: Nathália Braga.

Como lidar com agências que não ligam para o turismo responsável com animais?

A dica do professor Rodrigo é: manifeste seu desconforto com a falta de diretrizes de turismo responsável para os operadores e agências governamentais locais, escrevendo em livros de sugestões ou por e-mail. “Por mais que o efeito não seja imediato, esse tipo de comunicação tende a dar frutos consistentes em mais longo prazo, desde que seja feito de maneira respeitosa”, afirma Rodrigo.

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